Em ano de eleições municipais, é importante discutirmos questões e aspectos relevantes sobre as cidades. Este texto é a reprodução de um artigo científico, no qual são abordadas a complexidade e o potencial da cidade como local apropriado para processos de desenvolvimento local.
Espero que o texto (reprodução do artigo científico na íntegra, fruto de minha dissertação de Mestrado em Administração) seja útil e contribua neste sentido. Afinal, quanto mais aprendermos sobre as cidades, suas complexidades e potencialidades, mais estaremos aptos a transformá-las, tornando-as locais melhores para se viver!
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O Sentido do “Local” e o Papel da Cidade no Desenvolvimento Local
Resumo
O desenvolvimento local é fundamentado no protagonismo da sociedade, ou seja, na participação da comunidade (pessoas e organizações), como construtora do seu desenvolvimento. Assim, a partir de diagnóstico e, especialmente a identificação de potencialidades locais, articulam-se os atores sociais – pessoas, organizações/instituições e poder público – na edificação da dinâmica transformadora local, com vistas a um futuro melhor à sociedade. Neste contexto, o objetivo deste estudo, de natureza teórica, é analisar o significado e os sentidos do “local”, buscando oferecer reflexões sobre as dinâmicas da cidade, principalmente sociais e estruturais, que facilitam e, sobretudo, alicerçam o processo de desenvolvimento local. O principal resultado do estudo é o argumento de que a cidade é o “local” que apresenta condições apropriadas para a promoção do desenvolvimento local.
Palavras-Chave: Cidade. Gestão Pública. Desenvolvimento Local. Desenvolvimento Econômico.
1 Introdução
O desenvolvimento local é um conceito alicerçado no protagonismo da sociedade local. O seu surgimento reflete um descontentamento com os projetos de desenvolvimento nacionais e regionais centralizados e baseados apenas no crescimento econômico e no avanço tecnológico, os quais têm provocado crescente desigualdade social em nível mundial. Assim, a sociedade civil participativa e construtora do seu destino, constitui o alicerce do desenvolvimento local, principalmente porque ocorre atualmente um reforço das unidades territoriais. Ressalte-se ainda que a globalização reforçou a importância da valorização do local, das origens, do sentido de pertencimento a um lugar. Além disso, o desenvolvimento local tem origem também em experiências bem sucedidas de desenvolvimento de cidades e regiões de países como a Itália (PUTNAM, 2007; POCHMANN, 2004), Canadá (MARTINELLI; JOYAL, 2004) e Áustria (VEIGA, 2002). Não obstante, as condições sociais, econômicas, históricas e culturais de cada local são próprias e peculiares, não sendo possível a simples utilização de modelos prontos de desenvolvimento local.
O objetivo deste estudo, de natureza teórica, é analisar o papel da cidade no desenvolvimento local, buscando oferecer reflexões sobre as dinâmicas da cidade, principalmente sociais e estruturais, que facilitam e, sobretudo, alicerçam o processo de desenvolvimento local.
No Brasil, apenas há alguns anos começou-se a falar de maneira mais intensa em desenvolvimento local (MARTINELLI; JOYAL, 2004), sendo que em ambiente universitário, o desenvolvimento local só começou a merecer espaço a partir de 1996. Quanto às ações governamentais em prol do desenvolvimento local, somente no final da década de 1990 surgiram estratégias para instituir e implementar o “Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável (DLIS)”, envolvendo o governo federal, os governos estaduais, as prefeituras municipais e o SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequena Empresa (ÁVILA, 2000). A criação do “Estatuto da Cidade” (Lei n. 10.257, de 10/07/2001, que estabelece diretrizes gerais da política urbana) também estimulou o desenvolvimento local, a partir do momento em que regulou a gestão democrática da cidade, fortalecendo o processo democrático e estimulando a cidadania (BRASIL, 2001).
Diante do exposto, mesmo que ainda de forma incipiente, o desenvolvimento local no Brasil se apresenta como uma oportunidade de alterar a realidade de muitas cidades e comunidades, através da mobilização social e o apoio, facilitação e estímulo do poder público local. Portanto, o desenvolvimento local se consolida quando há um processo de aproveitamento dos recursos e riquezas de um determinado local, os quais podem ser valorizados e transformados por meio do efetivo envolvimento da comunidade, resultando na melhoria da qualidade de vida da população através da geração de empregos, renda e acesso à saúde e educação. Ademais, o desenvolvimento local possui características como: a valorização dos recursos do local, o compartilhamento de conhecimentos e experiências entre a população, a organização e a solidariedade, a participação e, sobretudo, o dinamismo local ou a mobilização de energias, no sentido de se levar adiante projetos que surjam da negociação de interesses, inclusive divergentes eem conflito. Entretanto, observa-se que persistem dúvidas no horizonte conceitual do que venha a significar de fato desenvolvimento local (ÁVILA, 2000). Trata-se de um tema multidisciplinar, que abarca uma diversidade de experiências, práticas e interpretações.
Destaque-se ainda que o desenvolvimento local não pode ser pensado somente a partir da localidade. Outras escalas devem ser consideradas, haja vista que as transformações locais não estão desligadas das transformações em âmbito estadual, regional, nacional e global. Mas as condições ambientais existentes nem sempre favorecem o desenvolvimento local. Outros requisitos para o desenvolvimento local podem ser representados pela necessidade de cooperação e formação de redes sociais, além da estruturação de políticas públicas adequadas que estimulem o desenvolvimento local.
A seguir, são apresentadas considerações e reflexões sobre a globalização e sua influência local, o sentido do local, a relevância dos aspectos sociais no desenvolvimento do local, a dimensão geográfica do local e o papel da cidade no desenvolvimento local, e considerações sobre a complexidade da cidade.
2 A globalização e o “local”
A globalização pode ser percebida como o aprofundamento da tendência à hegemonia da cosmovisão ocidental/“americanizante”, assentada na racionalidade tecnológica e na penetração de valores de mercado em todos os espaços e em todos os campos da vida social, que promove o declínio das identidades sob as forças da estandardização e a desconstrução do local enquanto singularidade, bem como a descaracterização ou perda de autenticidade das culturas locais, frente à sua cada vez maior permeabilidade às influências externas. Dessa ótica, as redes de comunicação, atuando como cadeias de fluxos contínuos de informação e de imagens, contribuem para descolar o indivíduo de seu ambiente imediato, vinculando-se a outros espaços de referência, que não mais o local enquanto continente de memória coletiva. O caráter crescentemente urbano da vida social acentua a tendência ao estabelecimento de padrões comuns entre as diferentes localidades (ALBAGLI, 1999).
Nesse contexto, Pochmann (2006) menciona que há algo que vem preocupando cada vez mais as autoridades responsáveis pela administração do espaço local. Trata-se fundamentalmente do tema referente à real capacidade de transformação do local frente à avalanche da globalização, cuja principal força motriz se concentra no conjunto dos interesses agregados em torno das grandes empresas transnacionais (investimentos produtivos) e das altas finanças (investimentos em ativos financeiros).
Entretanto, sob outra perspectiva, de acordo com Albagli (1999), acredita-se que a globalização não significa o fim de toda identidade territorial estável, mas que, ao contrário, cada sociedade ou grupo social é capaz de preservar e desenvolver seu próprio quadro de representações, expressando uma identidade ao mesmo tempo espacial e comunitária em torno da localidade. É dentro desta perspectiva que se alicerça o conceito de desenvolvimento local, haja vista que “[...] o espaço de fluxos [gerado pela globalização] não anula a existência de lugares” (CASTELLS, 1999, p. 527). Mais que isso, conforme menciona este autor “[...] as pessoas ainda vivem em lugares” (p. 518). Portanto, “O lugar, em si mesmo, é suporte material para o ser humano existir (morar, produzir, circular, amar, conflitar-se com outro) e fonte de recursos naturais vitais” (BOURLEGAT, 2000, p. 17).
O solo – ou o local – está ligado à pessoa em todos os aspectos da vida porque é o próprio habitat biológico da pessoa (FERREIRA, 1987). Assim, terreno de reconstrução de identidades e vínculos, de reconfigurações sócio-produtivas e gestação de esferas públicas que expressam a diversidade e capilaridade da vida social, o local pode então ser visto como um campo de articulação necessário e insubstituível (SILVEIRA, 2006). Nesse sentido, o que se pode perceber é que um dos efeitos da globalização, ao invés de ensejar o fim do local, é levar à confrontação uma pluralidade de interpretações quanto ao significado do mundo, formulado a partir da perspectiva de tradições – nacionais, regionais, locais – e civilizatórias diversas (FROEHLICH, 1998).
3 O sentido do “local”
Situado ante o global, o local pode referir-se a uma dada localidade (cidade, bairro, rua), região ou nação, constituindo, em qualquer dos casos, um “subespaço” ou um subconjunto espacial, e envolvendo algum modo de delimitação ou recorte territorial, o que se expressa em termos econômicos, políticos e culturais. Local, enquanto conceito e enquanto realidade empírica, é uma noção relacional, remetendo aos seguintes principais aspectos: a) tamanho/dimensão, associando-se ao conceito de escala; b) diferenciação/especificidade; c) grau de autonomia; d) nível de análise e de complexidade (ALBAGLI, 1999).
Entretanto, para Castells (1999, p. 512), “Um lugar é um local cuja forma, função e significado são independentes dentro das fronteiras da contigüidade física”. Trata-se, portanto, de uma questão de escala entendida mais como “unidade de concepção” e não como unidade de medida, limitada a um mero exercício matemático. Entende-se que o espaço local define-se por um conteúdo ecologicamente dinâmico e historicamente elaborado e experimentado pelas pessoas que nele moram (ou moraram). As pessoas, consideradas em suas distintas possibilidades sociais e econômicas, relacionam-se com as condições de ocupação e sobrevivência do lugar, com ele se identificam, dele se apropriam, nele formam raízes. Insiste-se que esta é a essência do lugar, chave da elaboração e da compreensão de sua identidade (MARTINS, 2002).
O local constitui-se, assim, em espaço de articulação – ou de síntese – entre o moderno e o tradicional, sinalizando a possibilidade de gestarem-se, a partir das sinergias produzidas por essas interações, soluções inovadoras para muitos dos problemas típicos da sociedade contemporânea (ALBAGLI, 1999). “Baseando-se em tais considerações é que se passa, hoje, a não mais se aceitar o déficit de valorização do espaço no âmbito das reflexões sobre o desenvolvimento, como ocorreu nas teorias da modernização (independentemente dos matizes), onde ele era apenas encarado como epifenômeno” (FROEHLICH, 1998, p. 92).
Desse modo, é
[...] elementar que toda reflexão, investigação ou ação na escala local devam ser realizadas à luz da realidade cotidiana, isto é, que devam incidir sobre problemas relevantes e concretos de uma comunidade em seu entorno ou lugar, sem perder de vista as múltiplas determinações e interações com outras escalas ou níveis de análise. (MARTINS, 2002, p. 54).
Mesmo porque, “[...] a potencialidade do local está além dele; a potencialidade da cidade, no capitalismo globalizado, situa-se além dela [...]” (OLIVEIRA, 2001, p. 27). Logo, torna-se relevante destacar que o desenvolvimento local não promove o isolacionismo do local, pois isso seria, no mínimo, uma tentativa ingênua diante da complexidade global irreversível do mundo contemporâneo. Dessa forma, de acordo com Costa (2003), em geral, os autores que abordam a temática do desenvolvimento local são unânimes ao considerar necessárias ações a partir de estruturas de pensamentos endógenos (locais), mas, admitindo os processos exógenos como importantes elementos de análise, pelo fato de os mesmos se constituírem em ameaças e/ou oportunidades para determinada localidade. Da mesma forma, todos entendem que sem a participação popular, o processo fica totalmente comprometido em sua prática. O desenvolvimento local, portanto, implica num processo de envolvimento das pessoas, do complexo conjunto social do lugar, como geradores de novas idéias e possibilidades.
4 A relevância dos aspectos sociais para o desenvolvimento local
“Assim, urge pensar no desenvolvimento num contexto local, reforçando as preocupações com os aspectos sociais” (MARTINELLI; JOYAL, 2004, p. 3). No entanto, os sistemáticos fracassos na implementação de projetos de desenvolvimento não têm levado os agentes promotores à necessária revisão crítica de suas propostas e à percepção de que cada povo tem esquemas específicos que orientam a redistribuição dos bens econômicos e que esses esquemas são sustentados por valores ou lógicas que os lubrificam e mantém (BRAND, 2001).
Em outras palavras, cada lugar sedia uma forma do acontecer, num infinito leque de possibilidades de um mundo contingente. Portanto, o conteúdo do lugar oferece condições para o acontecer. Logo, “O momento criativo da consciência emerge quando os indivíduos conseguem interpretar as raízes de sua cultura construída no lugar, nascida das relações profundas entre o homem e seu meio, para voltar-se a mudanças capazes de garantir a integridade coletiva” (BOURLEGAT, 2000, p. 18).
A cultura popular local, por ser oriunda das relações profundas entre a comunidade do lugar e o seu meio (natural e social), simboliza o homem e seu entorno, implicando um tipo de consciência e de materialidade social que evidencia o grau de afeição ou apego a um lugar. Esse é um fator de extrema importância para o desenvolvimento local, haja vista que permite a configuração da identidade do lugar e de sua população. Portanto, a valorização da cultura popular contribui para que a sociedade fortaleça a individuação e a auto-estima diante do outro, numa busca de desenvolvimento originário de sua própria criatividade e conforme os seus valores, porque é por intermédio da cultura que o indivíduo e a sociedade interagem com o mundo à sua volta (KASHIMOTO; MARINHO; RUSSEFF, 2002).
Ressalte-se que “Cada cultura constrói sua própria visão de mundo, e em conseqüência, sua racionalidade [...]” (MARÍN, 2003, p. 49), a qual influi significativamente em como a população desse local reage frente às contingências e, por conseguinte, diante dos desafios do desenvolvimento. Desse modo, as funções sociais da cultura são mais importantes para a vitalidade e o desenvolvimento de uma comunidade do que propriamente o conteúdo dessa cultura (MARTÍN, 2001).
Nesse contexto, pode-se considerar manifestações da cultura popular local a culinária, o artesanato, o folclore, os idioletos e a paremiologia (ditados, provérbios, ditos e aforismas), a literatura oral (lendas e mitos), a poesia popular, a história oral, a vestuária quotidiana, a música popular, os instrumentos musicais de uso local, a arquitetura espontânea, a fotografia incidental, os ritos de passagem, as manifestações religiosas, as festas populares, a farmacopéia extrativista, a meteorologia popular, as relações locais às modalidades de trabalho e de lazer, as relações locais aos elementos da natureza, formas de distribuição e exercício do poder local, entre outros. No plano da cultura erudita local, as principais manifestações culturais serão a literatura, a musicografia e a fotografia ditas “artísticas”, as artes plásticas, o cinema, a arquitetura e o urbanismo (incluindo-se o paisagismo), o estilismo vestimentar, a historiografia oficial, as formas idioletais cultas, entre outros (KASHIMOTO; MARINHO; RUSSEFF, 2002).
Contudo, apesar da indiscutível força da cultura local, é possível estimular novas formas de interpretar e encarar a realidade, novas posturas e atitudes sociais, principalmente quando se trata de se estabelecer um acordo em torno do que se espera que esse local represente futuramente em termos de desenvolvimento econômico e social. Assim, “[...] a ação comunicativa do lugar, quando portadora de sentido, na proposição de novas formas de adequação dos comportamentos sociais ao futuros estágios de desempenho, constitui a força interna de desenvolvimento” (BOURLEGAT, 2000, p. 18).
Em termos operacionais, a tônica dos trabalhos relativos ao crescimento endógeno pode ser generalizada da seguinte forma: a partir do conhecimento do potencial endógeno (constituído pelos recursos econômicos, humanos, institucionais e culturais de um local) pode-se analisar quais elementos devem ser utilizados e de que forma, no intuito de se elaborar estratégias pertinentes, e portanto, mais efetivas para promover o desenvolvimento local (LIMA, 2000).
5 A dimensão geográfica do “local” e a cidade como local apropriado para os processos de desenvolvimento local
Diante do cenário exposto, surge um importante questionamento relacionado à possibilidade de se pensar em desenvolvimento local para amplitudes locais tão abrangentes como um estado, uma região ou até um país. De acordo com Ávila (2000), em tese, se a idéia é a de que o desenvolvimento poderá ser levado de forma exógena ao local, há aparência de possibilidade, porque a caracterização teórico-conceitual descritiva de “desenvolvimento local” se refere a “local” como sendo o de uma comunidade situada em determinado horizonte territorial, com sentimentos, interesses, objetivos e identidade histórico-social comuns. Porém, se o desenvolvimento local é aquele que emerge do desabrochamento de capacidades, competências e habilidades no âmbito e do seio da própria comunidade, isto é, “de dentro para fora”, aí se percebe que a delimitação desse “território-comunitário” é bastante complexa, haja vista que é necessário que as capacidades, competências e habilidades do autodesenvolvimento se capilarizem com profundidade em toda a comunidade.
O autor ressalta que não há receita para dimensionar a “comunidade média ideal” em termos de desenvolvimento local. Há, entretanto, duas referências norteadoras que ajudam a ponderá-la. A primeira é a de que o processo do autodesenvolvimento (implicando os fatores endógenos e exógenos) “contamine” todos os componentes da comunidade, diretamente ou pela mediação de suas hierarquias e lideranças internas. Do contrário, o que pelas aparências pode se pensar que é autêntico desenvolvimento local, lá no próprio local pode estar sendo apenas privilegiadas oportunidades de manipulações e explorações internas, inclusive com a ajuda e os aplausos externos.
A segunda é que haja nesse “local”, certa (não exagerada) preponderância dos relacionamentos primários (informais, espontâneos, formados pelos relacionamentos cotidianos ensejados tanto pelos contatos pessoais diretos quanto pelos mediados por amigos, conhecidos de amigos, filhos, parentes em geral, companheiros de escola, de lazer, de profissão, de igreja, de opção ideológica, e assim por diante) sobre os secundários (regras formais caracterizadas pelas leis, normas e regulamentos que visam a coesão e controle de grupos sociais, as quais, uma vez explicitadas e oficializadas, conferem ao grupo a configuração de “sociedade”) ou, no máximo, se constate o equilíbrio entre essas duas categorias. A localidade demasiadamente primarizada é muito conservadora e fechada, tendendo a se manter no isolamento; e a muito secundarizada já se encontra esfacelada em termos de seus comuns sentimentos, interesses, objetivos, perfis de identidade e outros laços de coesão espontânea, sem os quais o desenvolvimento não emergirá de dentro para fora da própria comunidade, mesmo que à semelhança de “nascimento por parto induzido”, no qual os agentes e fatores externos não extrapolem os papéis de apenas “indutores” (ÁVILA, 2000).
Nesse contexto, Ávila (2000) conclui que a comunidade média ideal para desencadear o desenvolvimento local jamais parece ser a de amplitude estadual ou regional. No entanto, segundo o autor, em se tratando de Brasil, pode-se detectá-la de forma mais fácil e prática, através das “comunidades municipais”, muitas das quais à espera de algum tipo de “empurrão” que as desperte, sobretudo em termos de auto-estima e confiança, para o seu próprio desenvolvimento. Historicamente, o município tem origem no modelo romano, onde exercia funções políticas, legislativas e administrativas. Posteriormente, recebeu influências de visigodos e árabes, chegando à comuna portuguesa para, então, vir a se implantar em terras brasileiras (IBAM, 2007). Portanto,
Nesse nível de comunidade, à exceção talvez das de grande porte, os relacionamentos primários e secundários tendem a se equilibrar muito bem dado que a sede municipal constitui o ponto de confluência inclusive das interações espontâneas e informais dos bairros e/ou distritos [relacionamentos primários] e a municipalidade como um todo constitui local já demarcado e jurisdicionado por regras oficiais de procedimentos/relacionamentos internos e externos (políticos, administrativos, sociais, empresariais, orçamentários, e assim por diante), podendo até se autoregular normativamente em matérias constitucional e legalmente de sua alçada [relacionamentos secundários]. Todavia, qualquer municipalidade, por menor e mais homogênea que pareça, se desdobra em comunidades de bairros e/ou distritos, com potenciais e características que as diferenciam profundamente entre elas. Então, [...] parece lógico, correto e saudável que o desenvolvimento local se proceda de fato a partir dessas comunidades e se articule, dinamize e equilibre, no âmbito de toda a municipalidade, através de meios estrategicamente planejados para isto, como os da criação de conselho municipal de desenvolvimento e outros, capazes de monitorar o processo no sentido de que toda a municipalidade se desenvolva pela soma de progresso das comunidades de bairros/distritos, mas respeitando os potenciais e ritmos próprios de cada uma delas. (ÁVILA, 2000, p. 73).
As cidades têm sido o epicentro de todos os fatos relevantes no último século, sendo constantemente transformadas por processos sociais, econômicos e tecnológicos que nela se originaram, se espargiram pelo mundo e, finalmente, a redefiniram, em um processo circular cada vez mais acelerado, marcado pela diminuição dos espaços e intensificação dos processos de produção. A cidade torna-se assim, um elemento motriz da dinâmica social e econômica (RUEDIGER; MATTOS, 2004).
6 A complexidade da cidade e o desenvolvimento local
Uma cidade, portanto, é fruto do trabalho coletivo de uma sociedade. Nela está materializada a história de um povo, suas relações sociais, políticas, econômicas e religiosas. Sua existência ao longo do tempo é determinada pela necessidade humana de se agregar, de se inter-relacionar, de se organizar em torno do bem estar comum; de produzir e trocar bens e serviços, de criar cultura e arte; de manifestar sentimentos e anseios que só se concretizam na diversidade que a vida urbana proporciona (CEF, 2007). Assim, “Criar as condições que nos permitam viver juntos, com nossas diferenças, deveria constituir desafio coletivo” (MARÍN, 2003, p. 60). Isso se torna crucial para a vivência em sociedade.
Ressalte-se ainda que as cidades estão cada vez mais beneficiando-se das oportunidades e do desenvolvimento gerado pela nova geometria global, ao mesmo tempo em que se tornam as receptoras dos inúmeros e difíceis problemas que são por ela criados. As dualidades, as exclusões e inclusões, a riqueza e a pobreza, a cultura e a ignorância, a organização e a anomia, a participação e a irrelevância, a segurança e a violência, e muitos outros, são hoje problemas característicos da sociedade urbana. A tudo isso se sobrepõe uma enorme crise de identidade que define a organização política institucional. O estado-nação está cada vez mais condicionado pelos fluxos de globalização que limitam sua capacidade de atuação em quase todos os campos. Como alternativa a essa fragilização, as cidades como local de interseção com os fluxos globais tornam-se um importante componente da formação de identidade (LOPES, 1998), característica fundamental para o processo de desenvolvimento local.
“A cidade sempre foi considerada como um lugar privilegiado de criação do novo, efeito e causa de seu poder econômico e político” (CREVOISIER, 2003, p. 21). Essa afirmação revela o potencial e a capacidade da cidade, principalmente enquanto organismo social, de influenciar (e construir) o seu próprio futuro. Diante dessa constatação, Ferreira (1987, p. 14) informa que há mais de cem anos, já existiam apelos para uma consideração maior sobre a instituição “município”, que é caracterizado como um indispensável elemento de toda boa organização social. O autor ainda defende a valorização do município como princípio mais adequado ao reconhecimento e projeção dos autênticos valores locais.
Tradicionalmente, a configuração da cidade é baseada na dualidade “urbano-rural”, apesar de que essa dualidade tende a ruir em função das novas configurações espaciais e da evolução dos mecanismos de acesso aos espaços urbanos, como a informação, tecnologia, transportes, educação, etc., assim, o “rural” torna-se cada vez mais “urbano”. Nesse contexto, o Brasil é um país extremamente urbanizado. Aproximadamente 80% da população vive em áreas urbanas e 90% de seu Produto Interno Bruto (PIB) é produzido em cidades. A Organizaçãodas Nações Unidas (ONU) estima que o crescimento populacional das próximas três décadas ocorrerá basicamente nas áreas urbanas. Isso adicionará dezenas de milhões de novos habitantes às metrópoles e demais cidades. Para enfrentar essa situação, haverá a necessidade de investimentos em infra-estrutura e serviços públicos a fim de atender às novas demandas. Caso contrário, os problemas urbanos atuais poderão ser exacerbados (MATA, 2007).
A figura 1 apresenta a evolução da taxa de urbanização no Brasil, comprovando essa tendência. Saliente-se, no entanto, que o processo de urbanização não ocorreu de forma linear em todas as regiões do país.
Convém mencionar que, na época colonial, a população se concentrou na região litorânea. No início do século 20, com o advento da industrialização e do êxodo rural, as cidades começaram a crescer. A melhoria das comunicações e dos meios de transportes, a partir da década de 40, estruturaram o processo de metropolização e de concentração espacial da população (CEF, 2007).
Entretanto, a urbanização vertiginosa, coincidindo com o fim de um período de acelerada expansão da economia brasileira, introduziu no território das cidades um novo e dramático significado: mais do que evocar progresso ou desenvolvimento, elas passam a retratar – e reproduzir – de forma paradigmática as injustiças e desigualdades da sociedade, presentes em cidades de diferentes tamanhos, diferentes perfis econômicos e regiões diversas. Destaque-se ainda que o quadro de contraposição entre uma minoria qualificada e uma maioria com condições urbanísticas precárias é muito mais do que a expressão da desigualdade de renda e das desigualdades sociais: ela é agente de reprodução dessa desigualdade (ESTATUTO…, 2001).
Diante do exposto, o local (enquanto cidade) apresenta-se como uma realidade bastante complexa, pluralista, heterogênea, em quase todos os seus aspectos. Complexidade que precisa ser entendida e enfrentada. Nesse sentido, Mata (2007) identifica a governança local, o acúmulo de capital humano, a melhora da infra-estrutura, o aumento de oportunidades de renda, o aumento do potencial de mercado, como fatores que influenciam o desempenho das cidades brasileiras. O sistema educacional exerce, também, papel importante. A melhora na qualidade da força de trabalho e os transbordamentos da acumulação de conhecimentos são fatores relevantes e causam forte impacto no desenvolvimento da cidade.
Lima (2000, p. 180) lembra também que “[...] os administradores públicos municipais, agentes de maior importância na promoção do desenvolvimento econômico local na atualidade, devem ter em mente o fato de que a diversidade da economia é fundamental para a sustentabilidade do desenvolvimento”. Assim, o tempo das cidades com suas economias reféns de poucas grandes empresas parece ter chegado ao fim (OLIVEIRA, 2001).
Ressalte-se ainda que o Brasil tem mais de cinco mil municípios. Não é viável o governo federal, ou mesmo o governo estadual, conhecer todos os problemas de tantos lugares diferentes. E tampouco está na mão de algumas grandes corporações resolver tantos assuntos, ainda que tivessem interesse. De certa forma, os municípios formam os “blocos” com os quais se constrói o país, e cada bloco ou componente tem de se organizar de forma adequada segundo as suas necessidades, para que o conjunto – o país – funcione (DOWBOR, 2006).
Frente a essas transformações, enquanto estratégia de planejamento e de ação, o desenvolvimento local surge num contexto em que se esgotam as concepções de desenvolvimento associadas apenas ao progresso material (acúmulo de riquezas), pessoal (“ganhar a vida”) e ilimitado (“quanto mais, melhor”), mas, sobretudo, é um produto da iniciativa compartilhada, da inovação e do empreendedorismo comunitários. Dessa forma, mais que um conceito, o desenvolvimento local é um evento sui generis, resultante do pensamento e da ação à escala humana, que confrontam o desafio de enfrentar problemas básicos e alcançar níveis elementares e auto-referenciados de qualidade de vida na comunidade (MARTINS, 2002).
Portanto, é necessário promover o desenvolvimento como “[...] um processo social localizado, que conjugue crescimento econômico e melhoria das condições de vida da população por meio da ação de duas forças: 1) impulso à acumulação e 2) impulso à melhoria das condições das grandes massas” (BARBOSA et al., 2004, p. 274).
7 Considerações finais
O objetivo deste estudo foi analisar o papel da cidade no desenvolvimento local, buscando oferecer reflexões sobre as dinâmicas da cidade, principalmente sociais e estruturais, que facilitam e, sobretudo, alicerçam o processo de desenvolvimento local. Assim, convém destacar alguns dos argumentos centrais deste estudo, baseado nas reflexões efetuadas à luz de diversos autores.
A globalização é um fator importante e influente em quase todos os espaços do planeta, mas ela não anula a necessidade de se pensar em âmbito local. Nesse sentido, há um efeito oposto, pois, com a globalização, surgiu a necessidade de se repensar o local onde cada comunidade se encontra. A globalização, paradoxalmente, fez com que as pessoas percebessem que pertencem a um lugar, um local, com identidade, cultura própria e autenticidade, que não pode ser extinto por valores impostos pela racionalidade global. O local, portanto, é onde realmente as pessoas vivem e com ele se identificam.
O local proporciona a diferenciação de uma dada comunidade, mas não é imune às oportunidades e ameaças que o meio externo lhe proporciona. É difícil encontrar um lugar ou local que possa se isolar do mundo globalizado nos dias de hoje.
Os aspectos sociais do lugar são de fundamental relevância nos processos de desenvolvimento local, haja vista que é pelas relações entre o homem e seu meio que nasce a cultura local e sobre a qual se pode planejar as mudanças necessárias.
Nesse contexto, apesar de não se existir uma forma de determinar que tamanho seria o local ideal para os processos de desenvolvimento local, pode-se considerar a cidade como o elemento que mais possui as condições sociais e estruturais como um todo que podem facilitar e impulsionar o desenvolvimento local, em especial tendo em vista a existência dos relacionamentos espontâneos/informais entre as pessoas da sociedade e ainda os relacionamentos formais, regrados por leis, dentre outras formas de controle. A cidade ainda permite, salvo exceções, como as megacidades, que todas as pessoas possam se envolver nos processos de desenvolvimento local. Logo, no caso das grandes cidades, a promoção do desenvolvimento local em bairros específicos ou outras subdivisões da cidade talvez seja mais adequado.
Mas a cidade apresenta uma complexidade peculiar que precisa ser enfrentada enquanto local, com suas dualidades como: a pobreza e a riqueza, a cultura e a ignorância, a participação e a falta de envolvimento, dentre outras características. Portanto, as cidades precisam assumir o seu papel de autodesenvolvimento, haja vista que as esferas mais altas de poder sequer conhecem a realidade de cada município brasileiro.
A cidade, como organismo social complexo, pode e deve tornar-se protagonista do seu desenvolvimento. Mesmo porque, são as pessoas do local que conhecem melhor a sua realidade, com pontos fortes e fracos, ameaças e oportunidades, e, a partir desse diagnóstico, podem identificar o potencial de desenvolvimento da cidade, planejando e executando as ações transformadoras.
Assim, a cidade é o “local” que apresenta condições apropriadas para a promoção do desenvolvimento local. É uma questão de melhor organização e aproveitamento da inteligência coletiva que a cidade possui.
8 Referências
ALBAGLI, S. Globalização e espacialidade: o novo papel do local. In: CASSIOLATO, J. E.; LASTRES, H. (Org.). Globalização & inovação localizada: experiências de sistemas locais no Mercosul. Brasília: IBTC/MCT, 1999. p. 181-198.
ÁVILA, V. F. Pressupostos para formação educacional em desenvolvimento local. INTERAÇÕES – Revista Internacional de Desenvolvimento Local, Campo Grande, v. 1, n. 1, p. 63-76, set. 2000.
BARBOSA, A. F. et al. Desenvolvimento econômico e inclusão social. In: POCHMANN, M. (Org.). Reestruturação produtiva: perspectivas de desenvolvimento local com inclusão social. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 263-321.
BOURLEGAT, C. A. Ordem local como força interna de desenvolvimento. INTERAÇÕES – Revista Internacional de Desenvolvimento Local, Campo Grande, v. 1, n. 1, p. 13-20, set. 2000.
BRAND, A. Desenvolvimento local em comunidades indígenas no Mato Grosso do Sul: a construção de alternativas. INTERAÇÕES – Revista Internacional de Desenvolvimento Local, Campo Grande, v. 1, n. 2, p. 59-68, mar. 2001.
BRASIL. Lei n. 10.257, de 10 de julho de 2001 (Estatuto da Cidade). Regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências. Diário Oficial [da República Federativa do Brasil]. Brasília, DF.
CASTELLS, M. A sociedade em rede. 6. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
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Referência deste artigo:
GRZESZCZESZYN, Geverson; MACHADO, Hilka Pelizza Vier. O sentido do “local” e o papel da cidade no desenvolvimento local. In: SEGeT – SIMPÓSIO DE EXCELÊNCIA EM GESTÃO E TECNOLOGIA, 2008, 5., Resende. Anais… Resende: AEDB, 2008.
PDF: O Sentido do “Local” e o Papel da Cidade no Desenvolvimento Local
Não existe coisa mais bela que ver o povo lutar por direitos, participando de forma organizada, protestando, manifestando-se e colaborando para a consecução de conquistas sociais, conquistas coletivas.
E o povo, o qual nos referimos, somos todos nós: profissionais, estudantes, trabalhadores, homens, mulheres, crianças, adolescentes, jovens, adultos, idosos, ou, simplesmente, cidadãos! Cidadãos que não vivem isolados no mundo, pois todos nós pertencemos a uma coletividade! Neste sentido, quando participamos de manifestações, protestos, greves e todas as demais formas de tentar mudar a realidade, não estamos lutando por algo individual. De uma forma ou de outra, estamos todos conectados. E as lutas por direitos são sempre coletivas.
Assim, quando professores e outros profissionais da educação protestam e buscam seus direitos, no fundo, é a própria sociedade que está protestando, haja vista que todos passam pelo sistema educacional, todos precisam estudar, e quanto melhor a educação, melhor será a sociedade onde vivemos, sob os mais diversos aspectos!
Quando estudantes protestam por direitos, por meio de passeatas ou outras formas, é a sociedade que está protestando, pois os estudantes são filhos de trabalhadores e trabalhadoras, são cidadãos que precisam ser respeitados. São os futuros homens e mulheres que estarão à frente das cidades, estados e do país, das empresas e das demais organizações, das famílias e das comunidades.
Quando trabalhadores e trabalhadoras de todas e quaisquer categorias se organizam e buscam seus direitos, protestando, manifestando-se, são cidadãos exercendo o dever e o direito de lutarem por melhores empregos, melhores salários e melhores condições profissionais. São pessoas mostrando o quanto são importantes para o mundo, e o quanto merecem respeito e consideração, haja vista que todas as atividades e profissões influenciam a nossa vida. De um modo ou de outro, a sociedade necessita de diversos profissionais. Não somos auto-suficientes e nunca fomos! Desde que nascemos, somos dependentes de outros cidadãos e de outras organizações para vivermos!
Enfim, quando quaisquer cidadãos organizam-se, reivindicam direitos e melhores condições de vida, protestam, manifestam-se, ocupam as ruas, gritam, apitam, carregam faixas, discursam e mostram o seu poder de mobilização, são cidadãos exercendo o brilhante papel de sujeitos de sua existência! São cidadãos atuando como protagonistas de seu mundo! São cidadãos mostrando que não fogem à sua responsabilidade enquanto membros de uma coletividade! São cidadãos que não se omitem diante das tentativas de quem está no poder de imposições de realidades que oprimem, que manipulam e obstam o acesso aos direitos! São cidadãos que acreditam na mudança, e que essa mudança depende de todos, de cada um, e, por isso, a participação individual é importante e necessária.
Mas, infelizmente, não são todos que participam de mobilizações sociais. Por exemplo, há muitos professores que reclamam das condições gerais da educação, inclusive de seus salários, mas na hora de participar de manifestações e protestos, na hora de ir para a rua nas passeatas, na hora de paralisar suas atividades e participar de greves ou outras formas de protesto, não o fazem. Não participam, não atuam como agentes de mudança de sua própria realidade. Escolhem se esconder, escolhem se omitir, escolhem não participar, escolhem a indiferença, escolhem deixar as coisas como estão, escolhem não mudar nada.
Observe-se que o exemplo acima ocorre em todas as categorias de cidadãos! Quanto aos motivos dessa triste apatia à luta coletiva por direitos, pode-se citar parte delas, pois são muitas. Algumas pessoas são coibidas e tolhidas em sua possibilidade de participação, seja porque possuem laços como quem está no poder ou porque acreditam que podem sofrer represálias, e o medo os controla! Outros, são alienados e não tem a menor noção do que é viver em coletividade e da necessidade de participação e luta coletiva por direitos. Outros ainda, ficam conscientemente à espera da luta de outros, afinal, se outros lutam por eles, é cômodo e tranquilo abster-se de participar e apenas ser beneficiado pelas conquistas depois. Há aqueles ainda que não acreditam em lutas sociais, em mobilizações, manifestações, passeatas, greves, e pensam, ingenuamente, que quem detêm o poder, estará sempre disposto a negociar e promover as mudanças necessárias conforme as reivindicações da coletividade. Alguns, acreditam serem especiais a ponto de não participarem de protestos coletivos ou populares. Outros, simplesmente tem coisas mais importantes para fazer em suas vidas! Enfim, elencamos algumas, mas, como já afirmamos, são inúmeras as razões ou desculpas pelas quais muitas pessoas não participam.
Registre-se, entretanto, que é um direito não participar. Porém, as consequências dessa não participação é justamente o oposto daquilo que se busca: remunerações baixas, precarização de condições de trabalho, direitos desrespeitados, injustiças, abusos, ilegalidades, imoralidades e falta de seriedade com as reivindicações da população. Aliás, aqueles que estão no poder ficam muito felizes por essa não participação, afinal, é mais um motivo para tentar desqualificar os “rebeldes” que os enfrentam e os desafiam.
O fato é que, quem está no poder, teme quando percebe que a população está organizada, está ciente de seus direitos e sabe que as coisas podem ser diferentes, mais justas e melhores para a coletividade. Teme mais ainda ao perceber que as pessoas tem consciência do seu enorme poder de mudança quando estão unidas, organizadas, e mobilizadas por um objetivo comum. Teme quando percebe que seus discursos são confrontados por meio de manifestações públicas de pessoas nas ruas, por meio de passeatas, por meio de greves. Portanto, a desorganização popular, a desunião das classes, a omissão, a indiferença e a não participação em reivindicações coletivas é o que mantém a situação como está, haja vista que a mudança, nestas condições, é muito mais difícil ou quase impossível.
Portanto, não basta a indignação, não basta a crítica, não basta o discurso, não basta as discussões construtivas entre amigos, parentes e colegas de trabalho. Isso tudo é muito útil e necessário. Mas só isso não é suficiente! É pouco! Temos capacidade de fazer mais que isso! Precisamos participar efetivamente e transformar as nossas indignações e as nossas críticas em ações reais e concretas, sempre que for necessário!
Por isso, a participação em protestos, manifestações, passeatas, greves e outras formas de expressão de indignação são maneiras poderosas de pressionar e conseguir as mudanças que reivindicamos! A não participação só contribui para que as coisas permaneçam como estão, ou tornem-se ainda piores! A solidariedade às reivindicações sociais é importante, mas a participação de fato é transformadora! Assim, sempre que possível, faça um esforço pela coletividade. Participe de fato, especialmente se as reivindicações estão relacionadas a você e ao seu grupo social, como a sua categoria profissional, estudantil, ou outra a qual pertença! •
PDF: É necessário participar de reivindicações para transformar a realidade
Notícia de aumento a reitores causa indignação em professores de universidades públicas paranaenses
A notícia intitulada “Reitores negociam aumento para eles e deixam os professores de lado”, publicada em 25 de fevereiro de 2012, no site da Seção Sindical dos Docentes da UEM – SESDUEM / ANDES / SN, gerou perplexidade, indignação e revolta por parte de professores do ensino superior que pertencem ao quadro geral de servidores públicos do estado do Paraná.
De forma semelhante, o jornal Gazeta do Povo havia publicado a notícia sobre os aumentos aos cargos comissionados ou de indicação política no dia 18 de outubro de 2011, com a seguinte manchete: “Cargos de indicação política do PR ganham aumento de até 128%”. Esta reportagem não citou o aumento específico do cargo de reitor em universidades públicas e não anexou a tabela de cargos com suas remunerações. Como a maioria dos cidadãos, inclusive os professores, não estão muito acostumados a ler as leis e decretos, é provável que, por isso, não perceberam, já nessa época, o magnífico aumento dado aos cargos de reitores. E, obviamente, não se poderia esperar que os reitores divulgassem massivamente tal fato à comunidade acadêmica, não é mesmo? Mas essa reportagem citou o Decreto Estadual número 2.970/2011 (anexo neste texto), que foi publicado na página 4, do Diário Oficial número 8.567, de 11/10/2011, véspera de feriado, no qual consta o cargo de reitor na lista de beneficiados pelo aumento gordo do governo estadual.
De acordo com tais documentos, e outros citados a seguir, públicos e disponíveis na internet, a remuneração ou comissão pelo cargo de indicação política de reitor, o qual possui o código/símbolo DAS-1 passou de R$ 2.956,94 (conforme Decreto 3.105/1997 e a respectiva tabela anexa onde constam os valores das comissões) para R$ 7.494,62 (Decreto 2.970/2011) para os servidores com vínculo, que é o caso dos reitores, haja vista que todos são professores universitários, portanto, com o devido vínculo com a instituição. Assim, considerando-se tais valores, houve um magnífico aumento de 153,45% no valor das comissões destes cargos (percentual que supera em muito a inflação acumulada do período, segundo o IPC-FGV). Convém observar que, além do cargo de reitor, outros cargos de indicação política foram beneficiados pelo mesmo Decreto.
Agora, vamos entender o motivo dessa compreensível indignação de professores. Toda a sociedade paranaense tem conhecimento das constantes reivindicações de professores por melhores remunerações e condições de trabalho. Aliás, essa luta por direitos ocorre não apenas em nível de ensino superior, mas em todos os níveis (ensino básico, médio e superior). A precarização das condições de trabalho e a desvalorização da atividade de magistério por meio de baixa remuneração repetem-se por sucessivos governos, ainda que a categoria possa ter sido mais ouvida e mais respeitada por alguns deles.
O fato é que os professores do ensino superior (assim como outras categorias!) estão, desde 2011, em pleno processo de reivindicações por reajustes salariais com o governo do estado do Paraná, administrado, neste momento, por Beto Richa (PSDB). Inclusive, ao que tudo indica, o ano de 2012 será marcado por grandes manifestações, dentre elas, as greves de professores, haja vista as dificuldades nas negociações com o atual governo.
De tais reivindicações, citadas na reportagem da Gazeta do Povo, de 05/10/11 – “Professores universitários pressionam governo do estado por reajuste” – um dos pedidos é a equiparação salarial entre as funções dos servidores contratados pela Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Seti), já que um técnico administrativo do estado do Paraná ganha mais que um professor de ensino superior. Um professor auxiliar recebe R$ 1.808,82, enquanto que um técnico, que também tem curso superior, ganha R$ 2.382,77. Além da equiparação, os professores pedem aumento salarial conforme a titulação (especialista, mestre ou doutor) e a semelhança dos pisos iniciais das carreiras.
Outra queixa da categoria é que o salário dos professores das universidades estaduais está defasado em relação aos docentes das federais em até 20%. E as universidades federais estão em processo de mobilização e querem reajuste em torno de 15%. Então, os salários ficariam mais defasados ainda, o que poderia provocar, consequentemente, a evasão de professores de universidades estaduais em busca das federais. Ressalte-se que esse fenômeno já ocorre.
Portanto, o momento atual de luta da categoria de professores por reajustes em seus salários defasados vai de encontro com esses inexplicáveis aumentos para cargos de indicação política do governo do estado. É, no mínimo, muito contraditório o comportamento do governo Beto Richa – PSDB, que insiste em enrolar a categoria de professores universitários, conforme a notícia do site do Sindicato dos Professores da UNICENTRO – ADUNICENTRO, em 03/02/12: “Governo do Paraná volta atrás da sua proposta, nega revisão da carreira docente e empurra categoria para possibilidade de greve nas IEES”, com argumentos infundados como a falta de recursos para os reajustes salariais de professores.
Em outras palavras, quando se trata de aumentar a remuneração de cargos de indicação política, existe dinheiro, e aos milhões, não faltam recursos nos cofres do estado. Mas, quando se trata de reajustes à categoria de professores, não tem recursos. Este fato lamentável e vergonhoso nos faz perceber que a educação está apenas no discurso de muitos políticos. Quando estes mesmos políticos tem a oportunidade e o poder de mudar algo, de investir na área e melhorá-la, em diversos aspectos, não o fazem. A prática de muitos políticos não condiz com seus discursos!
Aliás, questiona-se: seria uma estratégia do governo do estado proporcionar esse grande aumento aos reitores, a fim de que os mesmos, satisfeitos com suas remunerações, tentem acalmar os ânimos e controlar a massa de professores das universidades, insatisfeitos com suas remunerações? Os reitores negociaram aumentos para si próprios de forma paralela às reivindicações e negociações da grande massa de professores e funcionários de universidades? Como e em que circunstâncias esses aumentos para cargos de indicação política foram conseguidos? Quem pressionou o governo do estado? Houve reuniões específicas para discussões e revindicações desses aumentos? Quando? Onde? Enfim, os reitores negociaram, legislaram e/ou reivindicaram em causa própria, utilizando-se de seus cargos (como representantes de universidades e de seu quadro de servidores) e da natural proximidade com a estrutura de poder do estado, em detrimento às reivindicações da categoria de professores e de funcionários/agentes universitários? Ou seriam os reitores “pobres vítimas” nessa história?
São questões muito importantes neste contexto de indignação com o comportamento contraditório do governo do estado ao negar reajustes para determinadas categorias e, ao mesmo tempo, promover reajustes enormes, fora da realidade, para ocupantes de cargos de indicação política. Será que teremos respostas? Será que teremos as devidas explicações? Será que existem explicações convincentes para este fato? Será que adianta explicações para algo inexplicável e/ou moralmente inaceitável?
Talvez a indignação diante deste controverso acontecimento tenha uma grande utilidade: despertar ainda mais na categoria de professores do ensino superior do Paraná (e outras) a necessidade de lutar por seus direitos, que são legítimos! •
É incrível como parte das pessoas defende os seus direitos com unhas e dentes, mas quando se trata dos direitos dos outros, aí a coisa muda, e muito! Aquele que se diz justo e correto num momento, de uma hora para a outra, torna-se um pregador de injustiças, e parece que isso ocorre só porque é o outro, e não ele, o “recebedor” daquele direito. Estamos falando de um assunto polêmico: o bolsa família do governo federal, tão criticado por alguns!
Mas, antes de mais nada, não sejamos ingênuos, não existe apenas o bolsa família na qualidade de “bolsa”, ou ajuda do governo, em nosso país. De forma geral, as “bolsas” oferecidas pelo governo federal e, em alguns casos, por governos estaduais, visam promover a inclusão social por meio do acesso a direitos básicos assegurados pela Constituição aos cidadãos e o estímulo ao desenvolvimento do país, que se faz por meio de diversas áreas.
Uma das mais importantes, sem dúvida, é a área da educação. Assim, o governo federal oferece bolsas de estudos, por exemplo, no ensino médio, no ensino superior, e na pós-graduação em cursos de mestrados e doutorados. O governo federal também oferece cursos de especialização gratuitos por meio de programas de educação à distância disseminados em grande parte das universidades públicas do país. Há ainda os programas de formação de pessoal (para funcionários públicos) de universidades ou outras organizações públicas que são oferecidos de forma gratuita, pois os governos, os quais são mantidos pelos impostos da população (ricos e pobres, favelados ou não), assumem seus custos. E desta forma, os funcionários públicos podem fazer graduação, especialização, mestrado e doutorado pagos pelo governo. De fato, a sociedade paga os custos de formação de muita gente no país!
Destaque-se ainda que quase todos os países, senão todos, oferecem “bolsas”, de diferentes tipos, formatos e objetivos, para os cidadãos de seus países, como forma de promoção do acesso a direitos, da inclusão social e do estímulo ao desenvolvimento!
Mas voltemos à questão do bolsa-família! “O BOLSA FAMÍLIA é um programa de transferência de renda destinado às famílias em situação de pobreza, com renda per capita de até R$ 140 mensais, que associa à transferência do benefício financeiro o acesso aos direitos sociais básicos – saúde, alimentação, educação e assistência social.” (http://bolsafamilia.datasus.gov.br/w3c/bfa.asp). Portanto, parece que fica clara a diferença entre as bolsas. O bolsa família tem como foco as “famílias em situação de pobreza”.
Muito bem. Por trabalhar na academia (ou ambiente universitário), tenho visto parte dos professores e funcionários de universidades, e de outras organizações públicas, criticarem veementemente o programa bolsa família. Os argumentos são os mesmos de sempre: “o bolsa família é dinheiro para vagabundos”, “o bolsa família só serve para comprar votos em época de eleições”, “o bolsa família é esmola”, “enquanto eu trabalho, o governo dá dinheiro para vagabundos”, “essa gente tem que trabalhar, ao invés de ganhar dinheiro do governo”, “tem que ensinar a pescar, e não dar o peixe como o governo faz”, dentre outros argumentos que já se tornaram clichês nas manifestações dos “anti-bolsa família”. Diversos estudantes também reproduzem tais expressões ao criticarem o bolsa família.
Sabemos que muitas dessas pessoas estão expressando suas ideologias, suas preferências políticas, estão representando seus partidos políticos e seus políticos queridos. Portanto, neste caso, é normal (mas não deveria ser) que critiquem tudo o que um determinado grupo político faz quando atua – temporariamente – no poder. Assim, criticam porque acham que tem o dever de criticar. Se o programa é ruim, critica-se, mas se é bom, critica-se mais ainda! Afinal, em política, funciona assim: não se pode elogiar ou reconhecer o que o adversário político faz de bom! Se é bom, encontremos algo de ruim para criticar, pois nada é perfeito! E assim caminha a velha e a atual política!
Mas o mais intrigante nessa história é observar alguns grupos de pessoas que criticam pesadamente o bolsa família. São pessoas que não estão no grupo dessas “famílias em situação de pobreza”, não são miseráveis passando fome, sem moradia ou com moradia precária, sem segurança, com a saúde debilitada, e sem esperanças na vida! Não. São pessoas “bem de vida”, como se diz na linguagem popular. Ou seja, possuem remuneração acima da maioria da população brasileira, desfrutam do acesso a todos os direitos básicos assegurados pela Constituição, e, pasmem, foram agraciados com bolsas de estudos ou outras facilitações de organizações públicas para alcançarem suas “formações educacionais”.
Isso mesmo! Pessoas que fizeram graduação, especialização, mestrado e/ou doutorado por meio dos incentivos e facilitações governamentais. Dessa forma, há funcionários públicos, da área burocrática, que aprimoram a sua formação com bolsas de estudos, ou com o oferecimento de cursos (até mestrados e doutorados) custeados pelos governos. E temos professores que fizeram e fazem seus mestrados e doutorados com bolsas de estudos! Aliás, a bolsa de doutorado oferecida pelo governo federal está em torno de R$ 1.800,00 e a de mestrado R$1.200,00. Há estados que oferecem bolsas superiores a estes valores.
E estas pessoas, muitas que já ganham de R$ 2.000,00 a R$ 5.000,00 ou mais por mês, ganham a bolsa de estudos do governo ou o curso gratuito com diversas facilidades (flexibilização do horário de trabalho, licença de atividades laborais, etc.) para fazer o curso. E consideram, obviamente, pouco! E estas mesmas pessoas, as quais usufruem de todos esses benefícios do governo, tem a ousadia de criticar o bolsa família! Ou seja, a bolsa (de estudos) deles de R$ 1.800,00 ou R$ 1.200,00 é necessária, é justa, é correta. Ainda que muitos não necessitem realmente delas. Mas o bolsa família, que transfere renda nos valores de R$ 40,00, R$ 80,00, R$ 100,00 para famílias pobres e miseráveis (muitas até com crianças passando fome!) é dinheiro jogado fora! É considerado dinheiro para vagabundos!
Ora meus caros colegas privilegiados das academias e outros Brasil afora, então significa que tudo o que o governo proporciona de direitos, de facilidades, de ajuda, e de incentivos para melhorar a vida de vocês é correto, mas o que o governo proporciona aos pobres e miseráveis, é errado? É isso? As suas vidas são mais importantes que as vidas dos pobres, miseráveis e excluídos? As suas conquistas profissionais e pessoais na vida são importantes e as dos outros não? As suas necessidades de comer, morar, vestir são importantes, mas as mesmas necessidades dos miseráveis não são? Os seus sonhos e aspirações são importantes, os dos outros não?
Não lhes passa pela cabeça que até estes pobres e miseráveis que necessitam do bolsa família, quando compram um quilo de feijão, arroz, trigo, estão pagando impostos e financiando a tua bolsa de R$ 1.800,00 ou R$ 1.200,00? Estão financiando a sua faculdade particular paga pelo governo? Estão financiando o seu curso em universidades públicas e gratuitas? Estão financiando todos e quaisquer auxílios que o governo lhes oferece? E mais, será que é “bonito” e “legal” depender do governo federal para sobreviver? Com certeza não! Tenhamos a certeza de que isso é humilhante! Acredite! Ninguém gosta de ser identificado oficialmente como “miserável” e ter que sobreviver com a ajuda do bolsa família do governo. Aliás, esta é apenas mais uma humilhação na vida desses pobres e miseráveis, tão violentados por sua triste condição de vida.
E alguns ainda poderiam dizer: “Ah, mas o sol nasce para todos! As oportunidades são para todos! Só não cresce e não melhora de vida quem não quer!”. Ledo engano! E deixemos o sol de lado, pois se trata meramente de retórica! O sistema capitalista beneficia aqueles que possuem o capital, ou seja, aqueles que têm mais posses e mais dinheiro. Estes terão, logicamente, mais e melhores condições de usufruir das tais “oportunidades”. Assim, é evidente que muitas das “oportunidades” serão usufruídas apenas por aqueles que tem os recursos e as condições para chegar até elas. É uma ilusão afirmar que as “oportunidades” são para todos. Não são! Enfaticamente não são! Mas o discurso capitalista é esse, afinal, as pessoas precisam dessa ilusão para se manterem dóceis, trabalhadoras e ordeiras, todas buscando o seu “lugar ao sol”, mesmo que esse sol ilumine mais alguns, do que outros.
A verdade é que, em muitas situações, temos apenas a “oportunidade” de competir. E então aqueles que tiveram as melhores condições (que o capital/dinheiro pode proporcionar) de se preparar para essa competição, terão, obviamente, as melhores chances de vencer a competição. E a ilusão de que “o sol nasce para todos” é reforçada pela simples possibilidade da competição! E o competidor fracassado ainda se condena porque não se preparou suficientemente para a competição! Sim, a crueldade sutil do sistema capitalista faz a vítima culpar a si próprio por não ter conseguido alcançar as “oportunidades”, haja vista que estas “são para todos”. Logo, “se eu não consigo acessar a oportunidade, o problema sou eu, não o sistema”. Mundo cruel, não é mesmo? Neste sentido, escrevi algo sobre “A importância de políticas públicas de geração e distribuição de renda”.
Mas não nos assustemos! Não são todos que possuem sensibilidade social. Alguns, aliás, nunca terão. Para muitos, que sempre tem e tiveram acesso aos seus direitos na sociedade, não é fácil entenderem a problemática dos pobres e miseráveis, principalmente quando não tem interesse nenhum em entendê-los! Atacá-los, condená-los, e discriminá-los é mais simples e menos trabalhoso. Repetir como um papagaio os argumentos simplistas de um “almofadinha” metido a profissional da mídia, que sempre teve tudo na vida, é mais fácil.
No entanto, sejamos francos, entender um pouco das complexidades da sociedade dá trabalho! São muitas leituras, muitas discussões, muitas trocas de conhecimento e é necessária muita empatia com os pobres, miseráveis e excluídos. E muitas pessoas não se dão a todo esse trabalho! E então, quem são realmente os vagabundos nessa história? Quem são realmente os pobres e miseráveis? Quem são realmente os analfabetos? Há uma expressão popular que diz: “São tão pobres, mas tão pobres, que só tem dinheiro!”. E para finalizar, neste contexto de bolsas e de ajuda do governo (que alguns julgam que só as suas bolsas e ajudas do governo são justas!), não seria interessante criar uma “bolsa desalienação” para essa gente que não tem sensibilidade social? •
O preconceito musical
Viver em sociedade não é fácil. Exige muita tolerância, muito respeito mútuo! Somos todos diferentes em vários aspectos. Tais diferenças tornam a vida em sociedade bastante complexa. Afinal, poderíamos nos perguntar: como os diferentes viverão juntos, em sociedade? Ou a pergunta poderia ser: porque os diferentes não podem viver juntos? Tais questões resumem o desafio da convivência em sociedade! Viver em sociedade é conviver com pessoas e grupos de pessoas diferentes de nós. Pessoas que pensam, agem, e gostam de coisas diferentes! Dentre as coisas diferentes, as quais contribuem para tornar as pessoas diferentes umas das outras, está a música. Assim, há diversos estilos musicais, para diversos tipos de públicos, os quais possuem diversos gostos e preferências.
Até aqui, nada de mais! É muito óbvio tudo isso! Mas o fato é que muitas pessoas se acham no direito de pensar que o seu estilo de música preferido é o “melhor”, é o estilo “correto”, é o tipo de música de “pessoas superiores”, e, assim, acham que podem discriminar os demais estilos de música e as pessoas que gostam de outros tipos de música. Esta suposta superioridade no “bom gosto” musical é baseada em dois fatores principais. O primeiro é o financeiro ou social. Neste aspecto, os argumentos são de que, pessoas ricas, ou de classes sociais mais altas, possuem gostos “mais refinados” e “melhores” que os pobres ou pessoas de classes sociais mais baixas, e, por isso, suas escolhas musicais são as “mais corretas”. Assim, toda a sociedade deveria segui-los. Eles são os donos do “bom gosto” musical!
O segundo fator, e não menos importante, é o intelectual. Afinal, todos querem ser associados a pessoas ou grupos de pessoas inteligentes. Então, pessoas “intelectuais” ou supostamente “mais inteligentes” que os outros possuem gostos “mais refinados” e “melhores” que os não tão inteligentes, e, por isso, suas escolhas musicais são as mais corretas. Eles possuiriam uma “cultura superior” que os “menos desenvolvidos intelectualmente” não teriam. Assim, toda a sociedade deveria segui-los. Eles são os donos do “bom gosto” musical! Eles sabem – com toda a sua sapiência inalcançável – como analisar o que é uma “música de qualidade”, e até que nível de “qualidade” a sociedade deve aceitar, usufruir, e gostar!
Aliás, muitas vezes, estes dois fatores – social e intelectual – podem estar juntos nos argumentos pela “pregação” da “boa música” na sociedade! Esta situação seria o auge da superioridade de gostos musicais sobre a maioria do povo pobre e incapaz de apreciar a boa música! Já imaginou? A pessoa pertencer a uma classe social mais alta e ainda ser intelectual? (“Nossa! Nossa! Assim você me mata…”) Teríamos então o perfeito guru – abastado e intelectual – do bom gosto musical, um guru da qualidade musical, um guru que pode definir o que é música de “qualidade” e o que não é. Claro que o “povão” pode não aceitar as preferências e recomendações do guru musical abastado intelectual, mas, também, o que se pode esperar do “povão”? O “povão” é pobre e quase sempre desprovido de intelectualidade musical, certo?
Bom, apesar da visível ironia contida nos parágrafos anteriores, o mundo está cheio de “gurus musicais abastados e/ou intelectuais”. É por isso que muitos discriminam outros estilos de música e, consequentemente, aqueles que gostam desses outros tipos de música. Vale ressaltar que gostar de certos estilos de música, e até defendê-los, é perfeitamente normal e todos nós exercemos este direito. O problema surge quando existe a discriminação de outros estilos musicais, por meio da associação de determinados tipos de música a coisas negativas, depreciativas, humilhantes e/ou reprováveis na sociedade. Isto não pode acontecer. Ou seja, a defesa do seu estilo de música ou do seu “gosto musical” (que é apenas seu!) pode ser realizada de forma respeitosa aos demais tipos de músicas e de pessoas que as curtem!
Logo, é perfeitamente possível gostar e apreciar certos estilos musicais sem discriminar os demais. É possível aceitar as diferenças de gostos e preferências pessoais, sem agredir, sem ofender ou desqualificar os gostos e preferências dos outros. E mais, letras ou ritmos de músicas consideradas “ruins” ou outros adjetivos negativos, têm em todos os estilos musicais, do Rock ao Aché, do Funk à MPB, da Gaúcha ao Sertanejo, do Forró ao Hip Hop, e assim por diante. Enfim, ninguém é o dono da verdade absoluta! Ninguém é o dono do bom gosto musical! Ninguém pode querer impor as suas preferências musicais aos demais, como se fossem as mais “corretas”! Cada um gosta da música que lhe atrai e não há problema algum nisso!
A liberdade, que tanto valorizamos, é de todos, e ela permite que cada um de nós estabeleça o que é importante para nós, o que é bom para nós, o que gostamos e o que preferimos. Mas essa liberdade também vem acompanhada da responsabilidade de nos colocarmos no lugar dos outros, de tentar entender que as opções e escolhas musicais dos outros são tão importantes para eles quanto são as nossas próprias opções e escolhas. “Se quero respeito ao meu gosto musical, devo respeitar o gosto musical de outros!”. São preferências de cada um: “Dá licença? Posso ser eu?”!
A realidade é que não podemos decidir o que os outros irão gostar, com o que irão se identificar, o que irão fazer, em que irão acreditar, enfim, não podemos (e não devemos) determinar como as pessoas irão viver. Afinal, não gostaríamos que as outras pessoas fizessem ou tentassem fazer isso conosco! Viver em sociedade é conviver com a diversidade! O nível de ecletismo de cada um de nós não é importante, o importante é que desenvolvamos em nossas atitudes, ações e comportamentos, muito respeito e tolerância aos diversos tipos de música e aos diversos grupos de pessoas que gostam e curtem cada estilo musical.
Dessa forma, o respeito mútuo é fundamental. Assim, é importante ter cuidado quando estivermos em lugares públicos, ou com vizinhos, ou em quaisquer ambientes e grupos sociais, pois há limites a serem observados por todos nós em prol da convivência respeitosa e pacífica. As pessoas, dependendo do ambiente onde estiverem, não são obrigadas a “suportar” estilos de músicas que não gostam. Viver em sociedade é respeitar o espaço do outro e o espaço que é público, ou seja, de todos, viver em sociedade é conflitar, mas, sobretudo, negociar constantemente.
E viva a música! Viva todos os tipos de música: a minha, a sua, a do vizinho, a dos amigos, a dos parentes! Viva a música do sul, a do nordeste, a do norte, a do centro-oeste, a do sudeste! Viva os diversos estilos de música, em todos os lugares e países do mundo! Viva a diversidade musical! •
O consumismo que nos consome a cada dia
“Comprar, comprar, comprar!” Este talvez seja o slogan mais adequado para a sociedade consumista do nosso tempo. Não basta ter roupas, tem que ter roupas novas e variadas, de preferência aquelas da moda; não basta ter carro, tem que ter um carro novo ou semi-novo; não basta ter uma casa ou apartamento, tem que ter a melhor e mais bonita casa ou o melhor apartamento; não basta ter computador, tem que ter o melhor computador. E se não pode pagar a conta à vista, compra a prazo, no cartão de crédito, faz dívidas! E nessa lógica as pessoas continuam a comprar os mais diversos bens patrimoniais ou de consumo, produtos, mercadorias e serviços que o mundo pode lhes proporcionar!
Questiona-se: porque tanta necessidade de comprar? A sociedade foi vencida pelo tal “materialismo”? Pela simples posse de patrimônio, bens e mercadorias? Porque parte das pessoas fazem de tudo (tudo mesmo!) para ter mais e mais dinheiro e poder comprar mais?
São questões importantes que, para muitos, a resposta seria simplesmente que “as pessoas estão tornando-se cada vez mais materialistas”. Este “materialismo” estaria associado ao fato de as pessoas quererem, cada vez mais, a posse de bens e produtos. Mas não é tão simples assim, ou seja, o simples prazer da posse e acumulação de bens das mais diversas naturezas não pode ser a explicação adequada para o ato de comprar cada vez mais, e cada vez mais querer comprar!
Neste contexto mercantilista, convém observar que um dos primeiros ensinamentos transmitidos aos estudantes de administração de marketing e áreas de conhecimentos afins é que as pessoas não compram produtos e serviços, ou outros bens quaisquer, pelo simples prazer da posse e acumulação. As pessoas compram, sim, porque aqueles bens, produtos ou serviços geram a satisfação de suas necessidades! Logo, as pessoas precisam de produtos e mercadorias e outros bens porque aqueles bens significam algo psicologicamente importante para elas. Fato!
Vejamos alguns exemplos. Quando uma pessoa compra um carro, este carro pode estar suprindo a necessidade real de transporte, seja para os momentos de lazer, como ir a algum lugar com a família ou para essa pessoa ir até o local de trabalho. Mas pode suprir outras necessidades – psicológicas – como a necessidade de status no seu grupo social, ou a sua necessidade de sentir-se realizado como ser humano (um vitorioso!), porque conseguiu comprar algo que poucos têm acesso na sociedade, e estes poucos podem ser considerados especiais, vencedores! Ou, se essa pessoa for homem, apenas a título de exemplo, pode significar a “grande arma de sedução” dele para com parte das mulheres!
Outro exemplo: as roupas que vestimos têm funções básicas como cobrir e proteger o corpo. Para isso, quase que quaisquer tipos de roupas seriam suficientes. Mas não se trata apenas disso, haja vista que vivemos numa sociedade em que a aparência (aquilo que se vê) realmente é considerada importante, queiramos ou não. E este fato leva as pessoas a sentirem a necessidade de estar com a aparência “adequada” ao mundo que os olha. Então, a roupa, além de cobrir e proteger o corpo, deve satisfazer também outras necessidades. Para uma mulher solteira, por exemplo, a roupa pode torná-la mais “apresentável” ou mais “bonita” para os seus pretendentes ou para aqueles próximos a ela. Desta forma, a roupa também serve para melhorar a auto-estima das pessoas, especialmente aquelas que se preocupam em se adequar aos padrões de beleza ou aparência, como a moda, ditados pela mídia (revistas, TV, jornais, etc.) da sociedade de consumo.
De forma semelhante, o conjunto de serviços de academias de musculação, e diversos outros tipos de serviços, supre, de fato, a satisfação da necessidade de se manter o corpo mais saudável, contribuindo com isso para o bem-estar físico e mental das pessoas. Mas também supre a necessidade de se adaptar aos padrões da ditadura da beleza e suas implicações decorrentes. E, saliente-se, muitas pessoas só vão às academias por causa deste último motivo: melhorar a sua auto-estima destruída pelos padrões de beleza que a mídia joga na sua cara todos os dias! E assim acontece com inúmeros outros bens, produtos e serviços que as pessoas consomem.
Portanto, o que as pessoas compram não suprem apenas necessidades de sobrevivência. Grande parte das compras é motivada por necessidades psicológicas, como o desejo de pertencer a um grupo social, o desejo de ser percebido, o desejo de ser reconhecido, o desejo de ser admirado e valorizado no ambiente sócio-cultural que o indivíduo está inserido, o desejo de ser, no mínimo, igual aos outros, e não menos!
Evidencia-se, portanto, que as pessoas possuem carências psicológicas, e estas, muitas vezes, condicionam, e em alguns casos, determinam, o que os indivíduos compram e consomem. Observe-se que na maioria dos casos, não basta comprar ou consumir, é necessário mostrar à sociedade ou ao seu grupo social o que comprou e consumiu. Logo, comprar ou consumir não é tão importante como tornar público o que a pessoa compra e consome! Afinal, que graça tem comprar um carro novo e não mostrá-lo ao mundo, não é mesmo? Que graça tem viajar, perto ou longe, dentro do país ou no exterior, ou ir à praia nas férias, e não alardear esse fato para que todos saibam?
Dessa forma, muitas pessoas tendem a viver em uma espécie de competição social materialista, na qual quem tem mais ou parece ter mais é o grande campeão. Não basta estar vivo e viver a vida, é necessário a posse de coisas, mesmo que isso exija trabalhar nos períodos da manhã, tarde e noite, mesmo que sua qualidade de vida seja péssima. O que realmente importa é manter os padrões de consumo de bens, produtos e serviços que os tornam “valorizados” aos olhos das demais pessoas na sociedade consumista. E aonde isso leva as pessoas? Será que a expressão “vencer na vida” é algo tão superficial? Aliás, será que precisamos realmente “vencer” algo? Quem colocou isso em nossa cabeça? Porque “vencer na vida” e não simplesmente “viver a vida”?
É importante refletirmos sobre as nossas reais necessidades de comprar e ter coisas. Em outras palavras, precisamos nos questionar: “Estou comprando porque é necessário para mim, porque é importante para mim, ou estou comprando apenas porque a mídia diz que tenho que comprar?”, “É a minha vontade e meus desejos que estou satisfazendo ou estou comprando apenas porque o mercado diz que tenho que comprar?”, “O que estou comprando é realmente necessário ou só estou comprando porque os outros também estão comprando e eu não posso ficar atrás deles nessa competição?”, “Tenho realmente a necessidade deste bem, produto ou serviço?”, “E se eu não comprar este produto, quais as conseqüências? Perco alguma coisa?”, “Serei menos gente por não comprar este produto?”.
Estes são alguns questionamentos que nos fazem pensar sobre o consumismo nosso de cada dia. É lógico que precisamos comprar diversos bens, produtos e serviços para termos um nível razoável de qualidade de vida. Mas tomemos um grande cuidado com os excessos! O consumismo pode nos tornar pessoas vazias por dentro, e, curiosamente, este vazio só será preenchido por coisas externas, como novos bens, produtos e serviços, e assim acabamos comprando ainda mais. Tornamo-nos escravos do “ter”: “só quando eu tiver algo, então serei alguém”. Mas, será mesmo que para “ser” é preciso “ter”? Será mesmo que estamos condenados a viver para ter cada vez mais? Será mesmo que a vida se resume a acumulação de bens, produtos e dinheiro? Será mesmo que dependemos tanto de coisas materiais – frias, superficiais, descartáveis – para podermos dizer: “eu sou feliz!”?
Este é apenas mais um texto, dentre muitos, que nos alertam para o consumismo descontrolado do qual podemos vir a ser vítimas (se já não somos!). Mas chega de blá-blá-blá, e vamos trabalhar para ganhar mais dinheiro e comprar mais coisas que nos fazem “seres humanos completos e felizes”! Ok? •
Com o objetivo de contribuir com aqueles que precisam de informações sobre como fazer um currículo profissional, e especialmente para quem está iniciando no mercado de trabalho, estou disponibilizando o meu livro na versão pdf: Como fazer um Currículo: Curriculum Vitae!
“O currículo representa a sua imagem profissional inicial perante uma empresa, tamanha a importância de um currículo para aqueles que buscam uma oportunidade de trabalho.
Diante do exposto, fica evidente a necessidade de fazer um currículo dentro de padrões de conteúdo e estética adequados e consolidados no mercado de trabalho.
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Referência: GRZESZCZESZYN, Geverson. Como fazer um currículo: curriculum vitae.
Florianópolis: Editora Bookess, 2011. (ISBN 978-85-804-5082-8)
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Boa leitura!
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